Como viver, simplesmente.
24 02 2011Perdoar o passado. Viver o presente. Desejar o futuro.
Se confundirmos estas realidades estaremos a confundirmo-nos.
Se eu quiser viver o passado, em forma de saudade, ou em forma de remorso, estou preso a uma imaginação que eu não poderei mudar. Acabarei efectivamente sem ter passado, pois o meu passado foi estar a olhar para o passado.
Desejar o passado, desejar que o passado seja diferente, exige muita energia e poderá ser feito apenas se distorcermos os factos da nossa história, o que também não é tradutor de bem-estar, devido à tensão gerada com as memória originais.
Em relação ao presente, ele não poderá ser perdoado. Pois isso seria criar dois momentos. O perdoado e outro no qual se perdoa. O presente não tem dois momentos.
Em relação a desejar o presente, também isto não poderá ser. Se eu estou sentado no meu gabinete, não posso desejar estar agora na china. Eu estou onde estou. O conjunto dos meus desejos passados levaram-me até ao presente e é bom que o aceite. O presente é para ser vivido, não desejado. Tentar desejar que o presente seja outra coisa causa uma incoerência que impede de aproveitar tudo o que o momento presente tem para dar.
Quanto ao futuro, não faz sentido que este seja perdoado, pois ainda nada aconteceu.
O futuro não pode ser vivido. Muitas pessoas, eu próprio caí e caio por vezes nesse erro. Tentar viver o futuro. Imaginar imensas coisas no futuro e fingir que realmente estas são o presente. Isto é viver uma ficção uma artificialidade que ainda por cima, tira a possibilidade de nos ficarmos no aqui e agora, efectivamente onde é possível viver é no aqui e agora.
O passado é para ser perdoado, isto é, o que fizemos de errado é para ser aceite por nós.O que costuma acontecer é que , por não terem perdoado ou aceite a sua história pessoal, as pessoas tendem a remoer o que está inscrito nesta. A nossa história, o nosso passado, não é para remoer, mas sim para aprender. Para aprender é preciso aceitar. Quem não aceita, vive em negação e está incapaz de lidar com o presente, pois não sabe quem é. Se eu não aceitar na minha história o facto de ser pai, é provavel que no meu presente não dê o tratamento necessário aos meus filhos, pois estou em negação desse facto. O passado, tal como o futuro são produtos do imaginário pessoal, não podemos confiar neles para agir. Este facto é bem estudado pelas ciências cognitivas no tema “falsas memórias”. Os advogados norte-americanos conheciam bem isto. Nos questionário que faziam em tribunal eles sabiam que obteriam respostas crescente de velocidade quando perguntavam “A que velocidade tocaram os carros?” “A que velocidade se esbarraram os carros” ou “A que velocidade se esmagaram os carros”. Desta forma descobriram que a nossa memória não é algo de muito fiável. Aliás, memórias discordantes são a fonte da maior parte das discussões. Que importância podemos dar então ao nosso passado? A memória pode trazer-nos o conhecimento das limitações não imediatamente visiveis com que nos deparamos numa determinada situação de vida. Cabe-nos a nós dar a importância devida a essas informações. Se a minha memória me diz que estou de más relações com alguém, cabe-me a mim dar a devida importância a essa mesma informação. Se calhar é demasiado desajustado dar-lhe um abraço efusivo, mas posso ter um comportamento um pouco mais afectuoso ou respeitoso do que aquele que a minha memória me indica. Só quando aceitamos a nossa história na totalidade estaremos disponíveis para viver o presente.
O futuro é para desejar. Para não corrermos o risco de vivermos no futuro ( que é na verdade a tentativa de controlar o que se vai acontecer connosco) podemos adoptar estratégia do desejo. O desejo é ao mesmo tempo desapego. Se desejar ser mais rico no futuro, posso deseja-lo. Se o desejar e confiar, não preciso de andar a antever todas as tarefas para chegar a este objectivo ,o que acabaria por me fazer viver no futuro. Nós somos criadores, sempre que desejamos criamos o futuro. “Sempre que um Homem sonha, o mundo pula e avança”.
Quanto ao presente, a partir do momento em que perdoamos o passado e desejamos o futuro, estamos livres e livres para aproveitar. No presente não há ameaças, no “aqui e agora” nós somos sempre livres, não há qualquer problema.
Considera isto um presente meu.
Categories : Uncategorized






