Recrutamento de sonhadores e sonhadoras
31 03 2011(…)
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
In Movimento Perpétuo, 1956
Isto que diz o mestre António Gedeão, assume na minha vida, nos dias que correm, contornos de verdade inquestionável. Tenho passado grande parte do meu tempo a sonhar porque acredito no poder irrefutável do sonho no pular e avançar do mundo.
Nestes dias, tenho aproveitado para percorrer a minha aldeia a pé (prefiro aldeia a freguesia, que é um termo mais administrativo) e vou sonhando. Muito do que sonho tem que ver com os campos. Já não os vejo só com milho ou erva, imagino com favas, tomates, pimento, abóboras, couves, batatas, cenouras e árvores de fruto, muitas árvores de fruto, laranjeiras, pereiras, nogueiras, macieiras, diospireiros, vinhas, kiwis.
Sonho gente a trabalhar junta no campo e a cantar, a merendar a meio da tarde.
Sonho o ave, que passa pela minha terra, limpido e transparente onde podemos juntos nadar e rir. Onde se pode pescar, andar de barco e fazer um pique-nique nas margens.
Sonho mães e avós com tempo para os filhos e crianças alegres que riem e olham intrigadas para os girinos nas poças.
Sonho com gente de bicicleta e a cavalo e galinhas soltas no meio da rua.
Sonho com coelhos nas bouças e amoras nos silvados que se apanham para juntar aos iogurtes. Sonho com fins de tardes em que se juntam os músicos e as gentes dançam.
Sonho com casas abandonadas que se transformam em casas de artistas e filósofos que não tem que se preocupar com o que comer.
Sonho que toda a gente se lembre de sonhar.
Sonho com crianças que possam entrar em todas as casas e que em toda a gente da aldeia tenham uma família.
Sonho com gente com tempo para cozinhar o pão e distribuí-lo pelos vizinhos.
Sonho com o médico da aldeia que conhece toda a gente.
Sonho que venham turistas e peregrinos e possam pernoitar na minha aldeia e sairem de cá mais ricos e alegres.
Sonho que todas as filosofias, artes e conhecimentos do mundo possam ter expressão na minha aldeia e que se partilhem em respeito e liberdade.
Sonho com uma Junqueira ainda mais espiritual, de uma espiritualidade contagiante.
Sonho com uma comunidade em que todos são amigos e todos se ajudam a realizar os sonhos de cada um.
Sonho conhecer os sonhos de toda a gente e poder ajuda-los no seu caminho.
Sonho ter amigos ao fim da tarde para estar em amena cavaqueira.
Sonho que as crianças possam conhecer os seus sonhos o mais cedo possível para poderem dedicar ainda mais tempo a persegui-los.
Sonho com a abundância conseguida pela partilha espontânea e livre.
Sonho com arte, literatura, inventos, filosofia, agricultura, costura e culinária.
Sonho tudo isto, livremente escolhido, sem imposições.
Sonho isto e mais e sonharei mais.
O meu sonho é simples, é radical.
O que sonho para a minha aldeia,
Sonho para Portugal.
E vocês, o que andam a sonhar?
Abro este recrutamento de sonhadores e sonhadoras o primeiro trabalho e o mais importante é sonhar. Será importante lembrarmo-nos mais vezes de sonhar?
PS- Sonhadores e sonhadoras, ficarei encantado de poder saber os vossos sonhos para que se completem e se dêem força. Obrigado.
Categories : futuro de portugal






