Gestão do dinheiro e gestão da educação – estratégias disfuncionais.

22 10 2009

O endividamento das famílias portuguesas é algo de extremamente preocupante. É apenas o segundo mais elevado da Europa.
A ansiedade gerada em volta o consumo e a incapacidade de decisão a longo prazo por parte das das famílias faz com que estas se deixem levar por compras e gastos completamente desadequados das suas possibilidades em sintonia com a expressão “como se não houvesse amanhã”. Este comportamento faria antecipar, talvez, que as famílias portuguesas, estando menos preocupadas com o futuro, viveriam de forma mais plena, disfrutando um pouco mais do momento presente. Nada mais equívocado.
Consumo e condicionamento
Todo o consumo (pelo menos na forma contemporânea de consumir) assenta no condicionamento da mente. Em palavras simples, o que a publicidade nos passa é o seguinte: se consumires isto, vais ter o resultado que queres, que é aquilo. Este modelo económico integra à partida duas falácias: a primeira é de que efectivamente a necessidade expressa vai ser saciada pelo consumo deste ou daquele produto; a segunda é a de que vai ficar tudo bem, quando na verdade sabemos que mais e mais necessidades continuarão a ser geradas para dar movimento ao consumo.
Por isto afirmo que quando alguém consome algo que realisticamente (do ponto de vista de sobrevivência e segurança não necessitaria) tem associado um sentimento de que vai ficar, de alguma forma, melhor com aquele consumo. Daí que não esteja a disfrutar do presente, aproveitando o bem recentemente adquirido, mas a antecipar os benefícios “comprei este carro, agora é que eu vou ser respeitado.
Os créditos e o sacríficio do futuro
Ao fazer créditos de forma a deixar-me ficar completamente limitado nas minhas opções financeiras, estou, como se costuma dizer, a hipotecar o meu futuro. Na verdade, não estou a ser meu amigo e é provável que me venha a rogar pragas futuramente e a minha relação comigo mesmo se venha a deteriorar. Um dos mecanismos de pensamento que permite isto é o “não quero saber” ou o “que se lixe”. É o que se pode chamar de “preguiça mental” e que como podem antecipar, traz problemas futuros ainda mais difíceis de resolver, quando poderiam ter sido cortados pela raíz “não compro, porque isto me vai por em maus lençois”. O essencial do crédito para consumo é que estamos a vender o nosso futuro e não falta quem o queira comprar.
A educação, a televisão e as prioridades trocadas
Agora lembro-me de uma letra dos xutos “Putos que crescem sem se ver, basta pô-los em frente à televisão!”. É isto que toda uma geração está a fazer. A hipoteca do futuro dos filhos. A televisão é a máquina mais poderosa de condicionamento ao consumo que alguma vez se viu. Assistam com os vossos filhos toda uma manhã a ver desenhos animados na televisão e vejam a quantidade de propaganda consumista que vos vai entrar pelos olhos a dentro.
Crianças a ser educadas em frente à educação é futuro hipotecado. Eles vão continuar a pedir-vos para comprarem aquilo que lhes disseram que os vai deixar mais felizes, para se desiludirem e voltarem a iludir-se com outra coisa qualquer. E no futuro que é que eles aprenderam a ser? Apenas robots: trabalhos na escola, aprendizagem mecanizada, condicionamento televisivo e consumo. No futuro o trabalho na escola é substituido por trabalho na fábrica e o ciclo continua. Terão possibilidade de decidir? Sempre, mas sem dúvida diminuida porque estão sem ferramentas para encarar o mundo, tem uma mente condicionada e pouco habituada a pensar por ela própria.
Achegas finais
Um tabuleiro de xadrez custa €10 e tem possibilidades infinitas de ocupação e desenvolvimento. Uma bola é igual, dando-lhes espaço para brincar. Uma flauta permite milhões de melodias, conversar é de borla, dançar também, ouvir música também é quase, a praia é de borla.
O tempo, tenha tempo para os seus filhos, tenha a cabeça livre para os seus filhos. Esteja realmente com eles. Está na hora de quebrar o ciclo. É agora.


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