Na passada sexta-feira fui treinar com a equipa de séniores da Junqueira.
Um dos meus desejos é jogar na selecção nacional de futebol e por isso,com quase 32 anos, tenho algum trabalho de casa para pôr em dia. Por causa de tudo isto, estive bastante atento durante o treino todo. Isto é uma tarefa bastante árdua para um quase iniciante nestas coisas como eu.
Houve no entanto alguns pontos de reflexão com os quais me deparei:
O que eu desejo para os meus colegas e o poder de acreditar
Lembro-me de comentar com o Diogo sobre este assunto. O papel de acreditar é sobejamente aceite em várias àreas do conhecimento humano. Na religião, acreditar é uma atitude central. O papel da fé é essencial na existência humana. A física quântica descobriu recentemente o “efeito do observador”, isto é, o que o Físico espera, tem resultado na experiência que está a ser observada. A psicologia, com várias experiências, por exemplo a de Rosenthal e Jacobson, no efeito de pigmaleão, descobriram que o que os professores acreditam em relação ao desempenho académico dos alunos, acaba por se verificar. No futebol, este conhecimento foi mais relegado para o papel do avançado: o avançado tem que acreditar.
Eu optei por passar a parte do treino em que consegui estar atento, a imaginar que os meus colegas tinham o melhor desempenho possível. Isto tem, pelo menos, três vantagens: primeiro lanço boa energia para a sua execução e crio uma boa ligação com eles porque lhes estou a desejar o melhor; em segundo lugar estou a povoar o meu inconsciente de imagens de sucesso que posteriormente me auxiliarão e em terceiro lugar, vou treinar a minha capacidade para imaginar movimentos futebolísticos de sucesso, o que é óptimo para o decorrer do jogo.
A competição interna na equipa e a vontade de rir do outro
O que me pareceu, foi que muito do pessoal estava à espera que o colega se enganasse. Consigo perceber, pois se pensar de maneira egoísta, prefiro que o colega que vai antes de mim a fazer o exercício se atrapalhe que é já para eu não parecer tão mal se me enganar. Este é um nivelamento por baixo e pode ter consequências negativas no desempenho do grupo de trabalho.
Com efeitos contrários ao que referi no ponto anterior, se me focar no desempenho negativo do meu colega, quer desejando-o, quer o sublinhando quando acontece, vou reforçar o meu imaginário com erros e vou estar mais preocupado com o meu desempenho por oposição ao desempenho da equipa.
O egoísmo e as suas repercussões negativas na equipa
Quando era criança, costumava-se chamar “Ingoista” a quem segurava muito tempo a bola e tentava fazer tudo sozinho. Esta intuição infantil percebia que a equipa é mais que o individual jogador. Infelizmente um comportamento egoista em relação á equipa não acontece apenas desta forma.
Se tivermos um treinador que apenas está atento aos erros dos jogadores, toda a equipa ficará focada no erro e mais cedo ou mais tarde, estarão a fazer comentários desagradáveis mesmo quando visivelmente o erro foi técnico e não de decisão. Imaginemos uma situação em que eu não conduzi a bola e passei, mas deveria ter sido eu a conduzi-la. Ora se eu fiz isto com medo de errar e ser criticado, estou a ter um comportamento egoísta.
Os comportamentos egoístas são valorizados mais sempre que em primeiro lugar aparece o jogador e depois a equipa: valorização do jogador que quer resolver tudo sozinho sempre, focar no erro técnico do jogador indivídual, não valorização do esforço conjunto, premios individuais de desempenho, etc.
Onde entra a espiritualidade
O meu professor de psicologia do desporto dizia que quanto melhor uma equipa estava, menos uma equipa falava. O meu sonho é poder ajudar uma equipa a jogar em completo silêncio. E pode muito bem ser a equipa da Junqueira, minha terra. Consigo perfeitamente imaginar uma equipa, nas aldeias, que consiga jogar em completo silêncio. Só o respeito que consegue impor, deve ser magnífico.
Segundo as mais variadas religiões, nós somos todos um em Deus. O budismo afirma que somos todos o mesmo e que a existência individual é uma ilusão. Cristo diz que somos todos irmãos e filhos do mesmo Pai. O Futebol consegue ser uma pequena lição do que isto representa. O egoísmo não vinga no futebol, o que vinga é o colectivo.
O Scolari conseguiu bons resultados com a selecção brasileira e portuguesa, muito por isto. Ele conseguia mexer com os espíritos (que é o que no fundo todos nós somos).
O aqui e agora, o presente e a intemporalidade
Lembro-me de, num treino, um jogador da Junqueira resmungar com a bola que havia perdido, virando costas, enquanto a bola lhe passava pelo sítio onde ele a poderia ter recuperado se tivesse continuado a acreditar.
Uma das principais tarefas de um treinador é manter a sua equipa acordada, presente. Se um jogador fica zangado com um colega por não ter feito o que ele queria ( e quantas vezes isso acontece) na próxima jogada de entendimento, as coisas já não vão sair da mesma forma. Este jogador ficou preso ao passado. Se criticar o meu colega porque ele falhou um golo, ele fica preso ao passado e quando tiver nova oportunidade não vai conseguir aproveita-la tão bem.
A actividade mental egóica (relativa ao ego) é algo que pode interferir em muito com a capacidade de estar presente no campo de jogo. Se eu ficar a remoer um corte que não consegui fazer, vou ficar muito menos apto a dar o meu contributo. Como se costuma dizer: fico a dormir. O futebol, ao contrário do que se possa pensar, é muito mais um jogo de decisão do que de execução. Os cálculos apontam para 2/3 do tempo para decisão e apenas 1/3 para execução. Para se poder decidir bem é preciso estar muito presente, para poder decidir em posse do maior número de elementos do jogo.
Tentativa de aplicação das leis espirituais do sucesso
A primeira lei é a lei da pura potencialidade. Esta lei afirma que o campo do espírito é um campo de pura potencialidade. Acreditar é saber que tudo é possível, inclusive o que nós desejamos. A mente é o campo da limitação. A meditação é uma das formas de usar esta lei. Outra das formas é o não-julgamento. Quando um outro jogador falha, se eu não gozar com ele (julgar) vou estar mais perto de não me limitar, de poder usar todo o meus potencial. Outra das formas é comungar com a natureza. Isto poderia ser uma actividade gira para fazer bem aos jogadores.
A segunda é a lei de dar. O que há a fazer aqui é equilibrar o dar com o receber. O jogador nem deve agarrar demasiado a bola, nem livrar-se dela quando é altura de a segurar. O medo não deve mandar. O medo é uma entidade não espiritual. A intenção do dar e do receber é sempre o mais importante. No mínimo, podemos dar a nossa benção. Qual é que é a minha intenção ao dar? Um exemplo negativo disto é quando, ao jogar ao meiinho um dos jogadores que está na roda, pretende queimar outro jogador. Este tipo de estilo perpetua-se depois no treino e nos jogos.
A terceira lei é a lei do Karma. Porque é que eu tenho sempre má sorte, dirá um jogador. A lei do Karma de forma simples diz: o que semeias, colhes. Cada acção desencadeia uma série de eventos no Universo que voltam para ti. Podem ler mais atentamente este post. A melhor forma é estar consciente das decisões que se está a tomar. Será importante ouvir o corpo (especialmente o coração) para tomar as melhores decisões. Em relação ao Karma passado, o melhor é pedir desculpa. Num momento de jogo há sempre infinitas escolhas. A melhor escolha é sempre uma escolha individual. Nunca o medo é a melhor escolha, ou a ganância ou o egoismo.
A quarta lei, que pode ajudar à espiritualidade no futebol, é a lei do menor esforço. A maior parte das vezes um jogador inexperiente pode ser diferenciado de um outro experiente pela quantidade de esforço que dispende. Não é necessário suar a camisola de forma esforçada. Há 3 componentes para a lei do menor esforço. Uma é a aceitação, aceitar que se sofreu golo, aceitar que se falhou um golo, aceitar que não me passaram a bola numa boa oportunidade. Aceitar as coisas como elas são e não como gostássemos que fossem. A outra componente é a responsabilidade, todos os problemas contém a semente da oportunidade. “Porque é que eu estou nesta situação? O que é que eu faço para melhora-la”. Por fim a ausência de defensabilidade. Isto significa que não tens que convencer as pessoas do teu ponto de vista. Não tens que explicar porque é que fizeste este passo assim ou assado. Se o fizeres é porque faz sentido e não porque é uma obrigação. Uma forma bastante prática de aplicar esta lei é pensar no mundo como um espelho: – o que acontece na minha vida é um espelho do que se passa em mim. Quando sinto resistência no mundo, penso: – “a que é que eu estou a resistir?” Será que estou a resistir ao sucesso? Será que não quero ganhar este jogo? Se encontro resistência é porque estou a fazer algo de errado e normalmente isso é porque estou a tentar demasiado. Podes ficar ansioso ou inseguro, o que dificulta o teu percurso no treino ou no jogo.
A quinta é a lei da intenção e do desejo. Podes desejar rematar melhor, por exemplo. Sempre que pões a tua atenção na vontade, cresces mais forte na tua vida. Sempre que tiras a atenção da tua vontade ela desintegra-se e desaparece e desaparece. A intenção, por outro lado, desencadeia a transformação de informação e energia. Se te estiveres a forçar, num treino ficas desgastado psicológicamente, se por outro lado tiveres o primeiro lugar no campeonato como desejo, ficas cheio de energia.Se queres cumprir os teus desejos, deverás saber exactamente o que é que queres. Deves focar-te no que queres e não no que não queres. Tu atrais o que te focas. Mais uma vez, é bom que haja um treino de imaginação dos jogadores para que estes possas desejar aquilo que querem.
A Lei do desapego é a sexta-lei. Para conseguires algo no Universo Físico, tens que te desapegar disso. Não desistes da intenção e do desejo, mas largas mão do apego ao resultado. O apego vem de uma consciência de fraco resultado. Um jogador deve ser mais orientado para o processo do que orientado para o resultado. O desapego envolve também saber que estamos a realizar um papel, seja de treinador, seja de jogador. Podemos fazê-lo com paixão, mas se ficamos muito identificados com o papel, alguma coisa má acontece. Se alguém me diz que sou o maior, fico em cima, se alguém me diz que sou fraco, fico em baixo e ando assim tipo marionete dos outros. Se queres ganhar poder, como treinador ou jogador, desapega-te e torna-te testemunha dos papeis que estás a representar.
A Lei do dharma ou propósito de vida é a sétima. Esta lei pode adequar-se ao futebol de forma simples. Qual é o teu maior talento no futebol. Em que é que podes servir melhor a tua equipa. Se calhar a tua resposta até te leva para o banco de suplentes. Se for esse o teu melhor papel, que seja. Se pudesses, em que lugar é que jogavas, tendo em conta os jogadores qual é o melhor papel que podes representar?
O futebol tem muito de espiritual, espero poder ter dado alguma ajuda. Também eu tenho muito a aprender sobre isto. Vamos ver quando chegar o próximo treino. Para já, doem-me as pernas do último.